Os Donos da História

O “nuncantismo” do Lula acabou virando livro de humor: “Nunca Antes na História Desse País”, escrito por Marcelo Tas e publicado pela Editora Panda Books, em 2009. Mas, o que parece marca exclusiva do nosso ex-presidente é algo mais disseminado do que parece. Essa tendência de ignorar ou diminuir o valor do que foi feito, ou de simplesmente se apropriar das boas realizações de outras pessoas, é característico dos “donos da história”. Eles não se acanham na hora de manipular os fatos, ajustá-los à sua conveniência e transformar em realizações próprias o que foi feito com imaginação, esforço e mérito por outros.
A Educação é uma área demasiadamente complexa e, pela natureza dos problemas que comporta, deveria estar a salvo disso. No caso de Minas, em especial, a extensão territorial e as desigualdades regionais existentes geram desafios que não podem ser enfrentados por uma única pessoa iluminada ou um único governo esclarecido. Por isso, ela é uma obra coletiva, realizada por muitos, num esforço continuado ao longo de muito tempo.
Acompanho e colaboro com a Secretaria de Educação desde 1977, quando era um jovem professor da UFMG, e reconheço que a continuidade é um dos ingredientes importantes do sucesso da educação mineira. Nesses 34 anos, passaram pela Secretaria de Educação quinze Secretários, ao longo de nove governos. Para compreender o que se passa hoje, considero mais significativa as mudanças que foram sendo introduzidas, a partir de 2003, no governo Tancredo Neves, primeiro eleito diretamente após o golpe de 64.
O fato marcante da gestão do Prof. Otávio Elísio, Secretário de Educação, foi a realização do Congresso Mineiro de Educação, coordenado pelo Superintendente Educacional Prof. Neidson Rodrigues. Esse Congresso resultou no documento Diretrizes para a Política de Educação de Minas Gerais que serviu de base para a elaboração do Plano Mineiro de Educação – 1984/1987.
Durante o período em que o prof. Walfrido dos Mares Guia foi Secretário, de 1991 a 1994, mudanças importantes aconteceram. A eleição de diretores de escola foi a medida que encontrou maior resistência por parte dos deputados estaduais. Maior autonomia das escolas, criação dos colegiados de escola, implantação do sistema de avaliação da aprendizagem dos alunos e a descentralização de recursos para as Caixas Escolares, também criadas nesse período, constituem um legado importante e produz benefícios até hoje na educação básica.
De 1995 a 1998, dois secretários responderam pela Educação: a profa. Ana Luiza Machado Pinheiro e o prof. João Batista dos Mares Guia. Nesse período foram desenvolvidos importantes projetos, financiados com recursos do Banco Mundial. Foi implantado o CBA (Ciclo Básico de Alfabetização), o Programa de Aceleração da Aprendizagem, a municipalização parcial do ensino fundamental, a informatização das escolas de ensino médio, o Procap e o Procad, programas de capacitação de professores e de diretores de escola, respectivamente. A pouca rotatividade na equipe da Educação, nos governos Hélio Garcia e Eduardo Azeredo, com poucas mudanças nos vários escalões, garantiu uma unidade/continuidade em torno do projeto de reforma e coerência nas ações.
Durante a gestão do prof. Murílio de Avelar Hingel, no governo Itamar Franco, duas medidas se destacaram. Primeiro, foi criado o SIMAVE – Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública. A segunda medida foi a implantação projeto Veredas para formação de professores dos anos iniciais do ensino fundamental em Curso Normal Superior. A rede estadual possui, hoje, apenas 6,5% dos professores com formação de nível médio graças, em grande medida, a esse programa.
Nas duas gestões do governo Aécio Neves, de 2003 a 2010, esteve à frente da Secretaria a profa. Vanessa Guimarães Pinto. Foi um período de grandes mudanças estruturais em que reivindicações históricas se tornaram realidade. A implantação pioneira do ensino fundamental de nove anos em todas as escolas estaduais e municipais, com matrícula aos seis anos, a implantação dos planos de carreira dos profissionais da educação básica e a aprovação da lei da remuneração por subsídio, o projeto Alfabetização no Tempo Certo, a criação do Proalfa – Programa de Avaliação da Alfabetização, o Programa de Formação Profissional (PEP), dentre outras, são medidas que transformaram a educação nas escolas estaduais e levaram a educação de Minas a uma posição destacada no cenário nacional.
Das futuras gestões só se pode esperar que continuem avançando, acrescentando soluções originais ou introduzindo aperfeiçoamentos que resultem num sistema de escolas mais eficazes.
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